domingo, 11 de abril de 2010


QUANDO A NATUREZA MATA
(recebi por email e não poderia deixar de compartilhar)
"A natureza não mata apenas com enchentes, deslizamentos, terremotos e tsunamis. Mata também pelas mãos do homem, o que é bem mais preocupante"
- Lya Luft -

Menina do interior, tive a natureza como presença enorme em torno da casa e por toda a pequena cidade: paisagem, abrigo, fascinação, surpresa, escola de permanência e também de transitoriedade. Mantive um laço estreito com esse universo, e quando posso durmo de janelas e cortinas abertas, para sentir a respiração do mundo. Porém, cedo também aprendi que a mãe natureza pode ser cruel. Granizo perfurando folhas e arrasando a horta, geada castigando flores, raios matando gente. De longe, ouvia falar em terremoto, quando o vasto mundo ainda era distante. Agora que o mundo ficou minúsculo, porque o Haiti arrasado, o Chile destruído e a Europa nevada estão ao alcance do meu dedo no computador ou no controle da televisão, a velha mãe se manifesta em estertores que podem ser apenas normais (o clima da Terra sempre mudou, às vezes radicalmente, antes de virmos povoar este planeta), mas também podem ser rosnados de protesto, "ei, o que estão fazendo comigo essas pequenas cracas que se instalaram sobre minha pele?".

Mas a natureza não mata apenas com enchentes, deslizamentos, terremotos e tsunamis. Mata pela mão dos humanos, o que pode parecer um fato em escala menor, mas é bem mais preocupante. Homens, mulheres e meninos-bomba quase diariamente se explodem levando consigo dezenas de vidas inocentes: pais de família, mães ou crianças, mulheres fazendo a feira, jovens indo para a escola. Bandidos incendeiam um ônibus com passageiros dentro: dois morrem logo, outros vários curtem em hospitais o grave sofrimento dos queimados. Não tinham nada a ver com a bandidagem, estavam apenas indo para o trabalho, ou vindo dele. Assaltantes explodem bancos em cidades do interior antes tranquilas. Criminosos sequestram casais ou famílias inteiras e os submetem aos maiores vexames e terror. Como está virando costume, a gente agradece por escapar com vida.
Duas mães deixam num barraco imundo cinco crianças, algumas com menos de 6 anos. Sem comida, sem força, sem presença, sem a menor higiene. O policial que as encontra leva duas menorzinhas para casa, onde sua mulher lhes dá banho e comida.
As crianças, de tão fracas, mal conseguem se alimentar. O homem chora: tem três filhos pequenos, e há algum tempo perdeu uma filhinha. A maldade humana agride até esse homem que com ela deve ter frequente contato.
A natureza, da qual fazemos parte, mata com muito mais crueldade através de nós do que através do clima ou de movimentos da terra, e de maneira bem mais assustadora: pois nós pensamos enquanto prejudicamos o nosso semelhante. Temos a intenção de atormentar, torturar, matar, mesmo que em vários casos seja uma consciência em delírio – estamos tão drogados que achamos graça de tudo. Mas somos responsáveis por nos termos drogado.
De modo que, como me dizia um amigo, o ser humano não tem jeito, não.
Ou: esse é o nosso jeito, a nossa parte na natureza. De um lado, os cuidadores, que vão de pais e mães até médicos e enfermeiras; do outro lado, os destruidores, que são os bandidos, mas também (que tristeza) eventualmente pais e parentes. E contra eles, tanto ou mais do que contra a natureza não humana, somos impotentes. O que faz a criança diante do abandono materno? Em relação ao pai, tio ou irmão estuprador? 
O que fazem passageiros de um ônibus, pacíficos e cansados, diante do terror imposto por bandidos? Nada. Migalhas humanas soterradas por maldade e frieza, como num terremoto ou tsunami somos soterrados pela lama, pelos destroços, pelas águas.
Resta filosofar um pouco: de que vale a vida, quanto vale a minha, e como a usamos, se é que pensamos nisso? Pensar pode ser meio chato, e ainda por cima traz alguma inquietação. A natureza poderosa, encantadora e cruel também somos nós: que a gente não fique do lado dos animais assassinos, como a orca, que depois de matar três pessoas continua, como foi anunciado, "fazendo parte do time", no parque americano.
Antes de usar um adesivo "salve as baleias", eu quero um adesivo "salve as pessoas, que são parte da natureza".

sexta-feira, 2 de abril de 2010


As festas da Bíblia (V): a Páscoa de Jesus
No tempo de Jesus celebravam-se as três grandes festas nacionais (a Páscoa, o Pentecostes, as Tendas), obrigando à peregrinação até ao Templo de Jerusalém, onde se juntavam mais de 100.000 peregrinos, para além dos mercadores de cordeiros e de outros animais para o sacrifício. Então, seguia-se o antigo ritual da Páscoa dos pastores e dos agricultores.

Deste modo, a 10 de Nisã (Março-Abril), as famílias compravam um cordeiro (Ex 12,3) e na noite de 13 para 14 limpavam as casas de todo o pão com fermento, para, no dia seguinte, ao meio-dia, começarem com a preparação da Páscoa, cessando todo o trabalho. Nesse dia 14, entre as 14,30 e as 17,00 horas, os homens entravam no pátio do Templo com um cordeiro que eles mesmos matavam, nos lugares apropriados, enquanto os sacerdotes recolhiam o sangue em vasos que era levado ao altar e aí derramado. As gorduras do cordeiro eram queimadas no altar dos holocaustos, enquanto os levitas, num estrado mais elevado, cantavam os Salmos do Hallel (Salmos 113 a 118). O homem que trouxera o cordeiro levava-o aos ombros para casa, para o assar e comer no banquete pascal, que começava com o aparecimento da primeira estrela.

No dia 15 era a Páscoa propriamente dita e nessa noite começava a festa dos Ázimos com o descanso (que terminava no dia seguinte à noite) e a oferta própria ao Templo. A festa dos Ázimos tinha o seu fim a 21 de Nisã à noite, que também era dia de repouso.

Nem todas as famílias conseguiam ter um cordeiro para imolar e comer e, por isso, juntavam-se várias famílias, convidavam amigos e pessoas pobres, ou juntavam-se pessoas sem grau de parentesco formando "famílias", como foi o caso de Jesus com os seus discípulos para celebrarem a Páscoa (Mt. 26.17-19; Mc 14,12-16; Lc 22,7-13).

No tempo de Jesus alguns dos antigos costumes haviam-se perdido, como o caso das vestes de caminhante (pastor). Comia-se à maneira grega ou latina (recostados à volta da mesa) e não era obrigatório imolar um cordeiro.

Deste modo, os ritos da ceia pascal começavam por se recostarem à mesa, beberem uma 1ª taça de vinho, e o presidente (geralmente o chefe de família) abençoar o vinho e a festa. Depois, traziam os legumes, colocava-se o cordeiro na mesa e bebia-se a 2ª taça de vinho. O filho mais novo perguntava ao pai "Porque é que esta noite é diferente das outras?" e este explicava-lhe que "É em memória do que o Senhor fez por mim, quando saí do Egipto", recordando as palavras de Ex 13,8. Seguia-se o cântico da primeira parte dos Salmos do Hallel (Sl 113-114) e a 3ª taça de vinho era servida aos convivas. Era a vez da acção de graças pela ceia pascal feita pelo presidente e da 4ª taça de vinho. Vinham então os últimos Salmos do Hallel (Salmos 115-118).

Os escritos do Novo Testamento referem 27 vezes a Páscoa de Jesus (Morte e Ressurreição), mas não dizem que Jesus foi ao Templo imolar o cordeiro, pois apresentam-No como Cordeiro pascal que redime toda a Humanidade.

O Evangelho de João é o que melhor apresenta a faceta pascal da morte de Jesus: Jesus foi condenado e morto (imolado) na véspera de sábado, no dia da preparação, a 14 de Nisã (Jo 19,31) e Marcos refere que foi à "hora nona", quer dizer, à hora em que os cordeiros eram imolados em grande quantidade no Templo de Jerusalém. O próprio João Baptista aponta Jesus como "O Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo" (Jo1,29). Lembrando Ex 12,46, o Evangelho de João compara Jesus no alto da cruz ao cordeiro pascal do Antigo Testamento (Jo 19,36). Os cordeiros do Templo eram depois comidos na refeição sagrada da Páscoa, tal como Cristo quis comer a Páscoa com os seus discípulos (Mt 26,18; Mc 14,14; Lc 24,26.46).

A Páscoa de Jeus não foi a simples renovação da Páscoa judaica e bíblica. Cristo celebrou a "Sua Páscoa", na "sua sala", com os "seus discípulos" (Mc14,12-16), pois a Páscoa do Antigo Testamento era símbolo e profecia da Páscoa do Povo da Nova Aliança. Por isso é que na Ceia pascal de Jesus não se refere o cordeiro ou as ervas amargas da ceia pascal hebraica, já que a "Sua Ceia Pascal" tem apenas pão e vinho, comida de todos os dias para dizer que precisamos de O comer todos os dias na Eucaristia. Ele dá a vida como Cordeiro pascal para ser o "Pão da Vida" (Jo 6) de cada dia.


Quando é que os cristãos começaram a celebrar a Páscoa? Há já referências em documentos do século II quando se discute entre as igrejas da Ásia se a Páscoa se devia celebrar no dia 14 de Nisã (Março-Abril) independentemente do dia da semana, contrariamente às igrejas do ocidente que insistiam que a celebração se desse no domingo seguinte ao 14 de Nisã, no dia da Ressurreição de Jesus.


(Adaptado da Revista Bíblica, n 225)


terça-feira, 30 de março de 2010


BALADA PARA OUTRAS ISABELLAS

Olá! Eu vim lhe contar um pouco da minha história...
Peço atenção, seu “dotô”, um instante, não demora...

Meu nome não é Isabella nem “caí” de uma janela do quarto no sexto andar...(será que pensaram, os insanos, que ela sabia voar?)

Não moro num prédio equipado, não tenho motos, brinquedos, nem piscina pra nadar...
Eu brinco, às vezes, nas poças de chuva, com gatos, latinhas, bolinhas de gude...isso quando não tenho que a mãe ajudar...

Não sei dançar, e não brinco como menina educada, porque aprendi, desde cedo, lá no morro onde nasci, que não importa o sexo da criança: menino ou menina, a experiência, é viver o teatro da sobrevivência...

Não me chamo Isabella... nem fui morta (ainda) por meu pai ou madastra...mas morro um pouco, a cada dia, quando sou espancada.
E morro também,assim, engasgada, obrigada a me calar quando tenho mãos sobre mim...nem sempre a me sufocar, mas explorando, de um jeito esquisito, que nem entendo direito,no meu corpo sem contornos...

Meu nome ,não é Isabella...
Não tenho cabelos lisos,nem tenho olhinhos espertos...
Ao contrário: meus olhos são opacos, talvez, por não querer enxergar
minha dura realidade...

Também não faço teatros, lá no palco da escolinha... isso não é para mim...
Quando vou à escola, é somente p’ra comer a merenda que me dão... pois muitas vezes, em casa, não temos sequer o pão...

O máximo que sei é correr: morro abaixo, morro acima, entre os carros dos sinais...para ganhar um trocado, ou para fugir dos adultos, que insistem em me machucar...

Eu não me chamo Isabella...mas, como ela, (ou até mais!) eu sofro... e diariamente...
Tenho marcas de pancadas, queimaduras de cigarros, tenho ossos fraturados, boca sangrando, hematomas, que mãos e pés gigantescos
me provocam sem motivo...

Não morri, como Isabella...
Ainda não... mas irmãos, amiguinhos, conhecidos, eu sempre vejo morrer...
Quem matou? Nunca se sabe...”ele caiu”, “tropeçou”,”queimou-se por acidente”.
“Estrupada?”, “coitadinha”...
“Não fui eu”, diz o padrasto; “nem eu”, diz a mãe omissa...
E eles não têm nem quem reze para eles, uma missa...

Eu não me chamo Isabella...sou Maria, Rita, João…
Sou Josefina, sou Mirtes, sou Paulo, Sebastião...
Sou tantas, tantas crianças, que todo dia a omissão de todos deixa morrer...

 

Engraçado é que ninguém, faz passeata por mim, a imprensa não divulga, o “figurão” não se importa, a classe média não grita, os ricaços dão de ombros...
Que hipocrisia é essa, de chorar por uma só?
São tantas as Isabelas violentadas sem dó...

Mas que importam os escombros, a escória da sociedade?

Se não me chamo Isabella, não mereço piedade.


(Recebi por email, de um amigo)

quinta-feira, 25 de março de 2010


A criança sensível em uma sociedade hiperativaPDFImprimirE-mail

Por Maeve Vida e Lígia Miragaia

Elas estão entre nós, por toda a parte. É fácil percebê-las. São muito ativas, olhar penetrante, alegres e profundas. Falam coisas que, aparentemente, não tem conexão com a vida que estão vivendo nesse plano. São lembranças de sua alma, fluindo para o dia-a-dia. 

São crianças sensíveis, que vieram com uma missão: juntas ajudarão a  transformar e reorganizar nossa confusa sociedade. Elas estão aqui para nos lembrar que os grandes mestres da Humanidade já nos deram e  ainda nos dão, os variados mapas a escolher, do caminho a percorrer  para encontrar a harmonia dentro de si.

Essas crianças estão chegando com um alerta: parem um pouco,  questionem seus hábitos, acalmem-se, respirem. Vamos juntos nos ajudar a praticar os valores espirituais que temos dentro de nós e  nos perguntar: Quem sou eu? Eu sou essa embalagem que um dia terei que deixar, ou sou algo além dela? Qual é a minha missão maior? Interna ou externa?

Em uma sociedade hiperativa como a nossa, essas crianças são tidas como desajustadas. Elas vêem com propostas 'absurdas' de arranjar tempo para passear de mãos dadas, observar o pequeno mundo mágico dos insetos, que sobrevive em meio ao concreto, de ter tempo livre para uma tarde no parque. Calma! Elas não querem nos fazer mal. Vieram para nos redimir. Para nos fazer lembrar que somos seres perfeitos por herança divina.

Não são elas as hiperativas: somos nós!
Suas almas apenas anseiam por retomar o contato com os ensinamentos espirituais profundos que já tiveram contato e se sentem incomodadas e irritadas quando não são colocadas em um ambiente adequado. Sem contato com a natureza, sem carinho e a atenção que necessitam no dia-a-dia, com excesso de estímulo eletrônico, sem poderem se expressar artisticamente através da música ou da arte, enfim, sem poder exercer sua espiritualidade no cotidiano, sentem-se tolhidas em sua grandeza. Então, como queremos que elas se comportem bem?

Não está sendo oferecido a essas crianças o alimento adequado para sua alma. Não compreendemos que para acalmá-las, basta fornecer a elas a simplicidade de uma vida equilibrada. Permitir que elas possam brincar com objetos simples, instruí-las para sintonizar-se com a Natureza e com a sua própria natureza, viver de acordo com seu ritmo infantil e não ao ritmo acelerado e estressante do universo adulto, serem preservadas de conteúdos que a despertem precocemente para a sexualidade, serem alimentadas com histórias dos heróis de verdade, que ensinam sobre as verdadeiras virtudes e valores, ou seja, anseiam por um alimento espiritual forte e claro, fazendo com que elas se sintam seguras, confiantes e felizes.

Essas crianças querem ser tratadas como almas individualizadas, e estão sedentas do conhecimento divino. Essas crianças sensíveis vieram para nos recordar de tudo isso. E o que nós adultos fazemos com ela? O novo nos causa pânico e mal-estar. As mudanças nos assustam. Os comportamentos não catalogados nos surpreendem.

Levianamente rotulamos essas crianças de hiperativas. Drogamos essas crianças, como fazemos com a nossa criança interior, quando ela pede calma, atenção e aconchego. Não compreendemos a grandeza da missão desses pequenos seres. Não percebemos que eles vieram para nos ensinar que todos precisamos de tempo, amor e proteção. E se quisermos ajudar a reconstruir essa frenética sociedade, precisamos buscar a paz dentro de nós, e não fora.

E em última instância, tudo que essas crianças estão desesperadamente nos cobrando é muito amor. O amor é a chave para a compreensão do seu universo. Dê amor a uma criança assim e ela compreenderá tudo que disser a ela. Mas sem essa chave, nada e ninguém poderá penetrar em seu mundo. Elas podem se tornar autistas, hiperativas ou portadores de doenças graves.

Mas como oferecer isso a elas, se nós adultos não sabemos o que é, onde comprar, como encontrá-lo? É neste ponto que nossa sociedade deve parar e se reajustar. O amor é como uma onda gigantesca, adormecida dentro de nós, que nos envolve totalmente quando permitimos que ele se manifeste, nos dando um tempo para simplesmente existir, sem nenhum tipo de cobrança, explicação ou subterfúgios. Quando permitimos despir a capa do ego e olhar para dentro da alma. Quando deixamos fluir o que somos em essência. Não é algo novo. Ele já está pronto, dentro de nós. 

Precisamos apenas tirar os véus que o recobrem. Os véus da pressa, do egoísmo, da ansiedade, da irritação, da vaidade, da ambição: vejam, quantos véus inúteis para nossa felicidade.

E fazer o caminho de volta para a comunhão com o Eterno, através da oração, da meditação, de uma conversa íntima com Deus, que realmente poderá mostrar onde está essa estrada luminosa que nos levará à compreensão total desses seres divinos, que podem ser nossos filhos, filhos de amigos, nossos alunos, não importa. Todos somos responsáveis pela felicidade das crianças do planeta.
Elas vieram para nos ensinar. Aproveitem!

Maeve D’Lippi e Lígia Schmiegelow são autoras do livro Gandhi, o Herói da Paz e editoras dos sites www.omnisciencia.com.br e www.educacaoparapaz.com.br, mães de três filhos cada uma, profundamente gratas pela oportunidade divina de aprender com esses seres de luz que são seus filhos.

quarta-feira, 10 de março de 2010

DICA DE LEITURA

SEGREDOS DE MULHER - Diálogos entre um ginecologista e um psicanalista


                                  





Autor(es): Alexandre Faisal Cury, Rubens Marcelo Volich
Editora: Atheneu

(FONTE: http://www.livrariaresposta.com.br/v2/produto.php?id=161637 )

Segredos. Eles estão por todos os lugares, em todas as etapas de nossas vidas. Às vezes, se expressam num sorriso contido, discreto. Outras vezes refletem pesar, decepção, dor. Dores da alma. Dores corporais.


Talvez por terem sido silenciadas por tanto tempo, as mulheres parecem guardar mais segredos. Fruto do medo, da injustiça e do desrespeito, os segredos muitas vezes surgem da força, bruta ou sutil, que, ao longo dos séculos, desconsiderou a mulher, sua existência, suas diferenças, seus desejos. Mesmo depois de terem conquistado o voto, de serem reconhecidas em sua igualdade e direitos, muitas ainda se calam, outras têm dificuldade para falar.


No entanto, em alguns momentos, os segredos tornam-se insuportáveis. É quando se busca alívio na confidência, quando um suspiro, um olhar, uma palavra denunciam uma dor que não pode mais ser abafada. Em outros momentos, os segredos contidos podem ainda explodir numa linguagem diversa: a do corpo, dos sintomas, das doenças.


Dos sofrimentos, concretos ou imaginários, que precisam ser compartilhados. Revelados. Os profissionais de saúde são frequentemente destinatários privilegiados desses segredos. Porém, as clínicas ginecológica e psicanalítica se constituem como lugares particulares de revelação e, por que não dizer, liberação. Lugares onde as mulheres, quase sempre sem saber, buscam o reconhecimento de segredos que elas mesmas não sabem existir ou não conseguem compreender.


Do encontro inesperado com algumas dessas mulheres, surgiu este livro.


Ele reúne histórias, algumas angustiantes, outras felizes, de mulheres, casais, filhas e famílias que puderam ser descobertas e compreendidas a partir de um outro olhar para queixas que se manifestavam apenas como sintomas ginecológicos: as dúvidas de uma gravidez, o desconforto de uma dor vaginal, o medo de um tumor, as perdas de um aborto, as dificuldades e prazeres da vida sexual. Nos relatos de cada capítulo, descobrimos como, ao encontrar a escuta atenta do médico, do psicoterapeuta ou de qualquer profissional de saúde, um corrimento pode revelar uma decepção amorosa; um mioma, uma dificuldade conjugal; uma gravidez, os medos mais longínquos da infância.


Por meio de revelações como essas, na clínica, as mulheres muitas vezes descobrem que os segredos, os silêncios e as dores podem não ser mais necessários, que ao falar sobre eles, pode surgir o alívio, e também a possibilidade de transformação.


Quando decidimos escrever este livro, pensamos em reunir nossos olhares, de ginecologista e psicanalista, para tentar promover essa visão ampliada da clínica e do tratamento.


Em nossas conversas, delineamos e esclarecemos as principais circunstâncias médicas e da história pessoal dessas mulheres, sem ter a intenção de esgotar todos os aspectos médicos ou psicológicos relacionados às queixas que apresentavam. No entanto, oferecemos àqueles que se interessarem a possibilidade de ampliar seus conhecimentos sobre cada tema, sugerindo uma série de leituras complementares.


Dessa maneira, cada capítulo desvenda o caráter singular da história, sentimentos e fantasias de cada mulher. Singularidade que inevitavelmente se manifesta também no modo de adoecer, de viver os sintomas, de se curar da doença. Ao final, compreendemos, naturalmente, a importância de considerar, na clínica, que, mesmo compartilhando um mesmo quadro clínico, diferentes mulheres viverão de diferentes formas seus diagnósticos e tratamentos.


Descobrimos ainda que, cada vez mais, as mulheres, mesmo pacientes, desejam falar. Contar o que sentem e vivem. Dar sentido às queixas, mas também às alegrias e conquistas. Protegidas pela ética médica, que norteia a relação entre médico e paciente, podendo se apoiar num interlocutor aberto a ouvi-las, elas conseguem dar voz ao que foi silenciado.


Neste livro, algumas dessas mulheres consentiram em compartilhar suas histórias de forma mais ampla. Não apenas conosco, autores, mas também com outras mulheres e homens que, por meio delas, talvez possam pensar de forma diferente suas próprias histórias. Aceitaram fazê-lo sabendo-se protegidas pelo anonimato de nomes, datas e informações particulares que, aqui, foram modificados para que não pudessem ser identificadas. Apenas a essência do que viveram foi mantida, para que o leitor possa refletir sobre o que nos contaram.


Agradecemos a todas as mulheres que, neste livro e em nossa clínica, nos ajudaram a melhor escutá-las, para que muitas outras possam falar.


Nesta posição privilegiada de ouvinte, nós, o ginecologista e o psicanalista, pudemos, pouco a pouco, revelar os segredos que, nesta coletânea de casos são segredos de mulher, mas poderiam ser segredos de homens, adultos ou crianças, ajudando eventualmente nossas pacientes e dando sentido aos nossos ofícios. Revelando, enfim, num ciclo virtuoso, entre quem cuida e quem é cuidado, nossos próprios segredos.


Sobre o autor


Alexandre Faisal Cury - Médico, formado pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Mestre pelo Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da FCM da Santa Casa de São Paulo, Doutor pela Clínica Obstétrica da Faculdade de Medicina da USP e Pós-Doutor pelo Núcleo de Epidemiologia do Hospital Universitário da FMUSP. Especialista em Ginecologia e Obstetrícia pela Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia e em Psicossomática Psicanalítica pelo Instituto Sedes Sapientiae de São Paulo. Presidente da Sociedade Brasileira de Obstetrícia e Ginecologia Psicossomática e pesquisador do Departamento de Epidemiologia da FMUSP. Autor do livro Ginecologia Psicossomática (SP, Atheneu, 2007) e colunista da Rádio Bandeirantes, Rádio USP e UOL.


Rubens Marcelo Volich - Psicanalista, Doutor pela Universidade de Paris VII - Denis Diderot e professor do Curso de Psicossomática do Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo. Trabalhou nos serviços de oncologia e mastologia do Hospital Saint Louis, em Paris. Coordenou o Centro de Estudos da Mama, com intervenções terapêuticas no Instituto de Ginecologia e Mastologia (IGM) da Beneficência Portuguesa e outros serviços de mastologia de São Paulo. Foi supervisor dos tutores da Residência de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e um dos criadores e supervisor do programa Tutores dos alunos da FMUSP.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010




A SABEDORIA DE APRENDER 
Roberto Shinyashiki

Nunca odeie quem lhe traz o problema. Ele é somente o professor. Resolva a dificuldade e agradeça a essa pessoa pela oportunidade de evoluir.
               
Uma das perguntas mais freqüentes que alguém faz a si mesmo é: por que estou enfrentando este problema? Infelizmente, a maioria das pessoas encontra a resposta do modo errado: culpando o outro. A culpa é do chefe, do companheiro, dos pais, do empregado.
               
Mas o outro nunca é a razão de seus problemas. Se você não aprender com a dificuldade, vai repeti-la ao infinito. Vai trocar de emprego, de companheiro, de empregados, mas, quando perceber, trocou as pessoas e o problema continua o mesmo, e se repete.
               
Os problemas são oportunidades de aprendizado e, quando perdemos essa lição, toda dor que sentimos se torna inútil. Lembre-se: para todo problema existe solução. Aliás, essa é uma boa definição: problema é um acontecimento que vem sempre acompanhado de solução. Quando você não tiver uma solução, será necessário definir qual é o problema.
               
Por exemplo: você descobre que não tem dinheiro para pagar as contas. Está bem, não ter dinheiro é um problema, principalmente se os credores estão lhe cobrando e os juros aumentando. A solução provavelmente se inicia com o corte de gastos, continua com uma negociação com os credores e alguma ação para ganhar mais dinheiro. No final, extraiu-se um aprendizado de uma situação que parecia ter apenas um lado negativo
                
 Perceba tudo o que você pode aprender em uma situação assim:
· Aprender a gastar de acordo com seus rendimentos;
· Aprender a ser humilde para negociar com os credores;
· Aprender a ganhar mais.
               
A solução sempre existe! E, na maior parte das vezes, a pessoa sabe qual é. O difícil é ter a coragem de pô-la em prática. Nunca perca a oportunidade de aprender com uma dificuldade. Aprender em geral é destruir uma visão e construir uma nova perspectiva.
               
E, principalmente, tenha certeza de que o problema será resolvido. Se você tiver alguma dúvida disso, pense: se você morresse agora, qual seria a evolução do problema? Percebeu? Ele de alguma maneira se resolverá.
               
A única coisa que não funciona é jogar no outro a responsabilidade por suas dificuldades. O ódio bloqueia a criatividade e só piora as coisas. As pessoas que chamamos de inimigos são os melhores mestres que a vida nos oferece para nos ajudar a aprender as lições que nos farão crescer. Elas nos mantêm acordados para podermos evoluir. Perceba que, depois que você resolve uma dificuldade, fica até agradecido por essa pessoa ter lhe ensinado uma lição.
                
"Perdoar é descobrir que você não tem razão nenhuma para perdoar; é apenas viver o aprendizado. Isso só acontece quando você aproveita a oportunidade para crescer".
               
Se você carrega ódio de alguém, pense na lição que você tem a aprender com esse alguém e sua vida será muito melhor.
               
Se você tem muitos problemas, pense na lição que você tem a aprender com esses problemas e sua vida será muito melhor.
               
Aliás, sabe por que você tem tantos problemas? Pela simples razão de estar vivo. Pela simples razão de ter muito ainda por aprender.
               
Se você está passando por um problema, pode ficar tranqüilo: ele não será o último nem o pior.
               
"Roberto", você pode perguntar, "vai me acontecer um problema pior do que este pelo qual estou passando?"
               
Com toda certeza. Você já notou que o problema que estamos enfrentando no momento é sempre o pior? Quando você olha para trás, certamente vê que já teve problemas muito maiores, mas a angústia do momento presente é sempre a pior.
               
Viver é enfrentar desafios, pois a função da vida é o aprendizado. Eu tenho um jeito de lidar com as dificuldades que me ajuda muito. Quando estou no meio de uma situação difícil, procuro afastar todas aquelas emoções que poderiam me angustiar e digo a mim mesmo: "Roberto, não faça drama! Isso é somente um exame de uma matéria em que você foi reprovado. Estude, se dedique e passe de ano".
               
Os problemas são matérias que temos de aprender. Mantenha a cabeça tranqüila e procure aprender rápido a lição, para poder passar de ano. Se não aprender a lição, a vida sempre trará os mesmos problemas de volta para que você possa evoluir o mais rápido possível.
               
E não se esqueça: os problemas são sempre do seu tamanho. Como disse o poeta Adoniran Barbosa, "Deus dá o frio conforme o cobertor". A solução está sempre dentro de você. Analise a situação, peça ajuda a um amigo e concentre sua atenção na solução do problema. Mais cedo ou mais tarde, inevitavelmente, você encontrará a solução. E nesse dia vai descobrir que se tornou um pouquinho melhor como pessoa.
               
Uma dica fundamental: nunca odeie quem lhe traz o problema. Ele é somente o professor. Resolva a dificuldade e agradeça a essa pessoa pela oportunidade de evoluir.
               
O mal é como chuva de granizo: faz muito barulho, às vezes machuca, mas passa logo. Já o nosso aprendizado, não. Ele é eterno.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

"Pipoca" 
por Rubem Braga



A transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação por que devem passar os homens.

o milho de pipoca não é o que deve ser.

Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro.

O milho somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer.

Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho para sempre.

Assim acontece com a gente.

As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo.

Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira.

São pessoas de uma mesmice, uma dureza assombrosas.

Só elas não percebem.

Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.

Mas, de repente, vem o fogo.

O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos - Dor.

Pode ser o fogo de fora: perder um amor, um filho, um amigo ou o emprego.

Pode ser o fogo de dentro: pânico, medo, ansiedade, depressão, doenças e sofrimentos cujas causas ignoramos.

Há sempre o recurso do remédio, uma maneira de apagar o fogo.

Sem fogo, o sofrimento diminui.

E com isso a possibilidade da grande transformação.

Imagino que a pipoca dentro da panela, ficando cada vez mais quente, pensa que a sua hora chegou: vai morrer.

Dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não consegue imaginar destino diferente.

Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada.

A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz.

Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: BUM!

E ela aparece completamente diferente, como nunca havia sonhado.



Piruá é o milho que se recusa a estourar.

São aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente se recusam a mudar.

Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. A sua presunção e o medo são a dura casca que não estoura.

O destino delas é triste.

Ficarão duras a vida inteira.

Não vão se transformar na flor branca e macia.

Não vão dar alegria para ninguém.

Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo da panela ficam os piruás que não servem para nada.

Seu destino é o lixo.



E você, o que é?

Uma pipoca estourada ou um piruá?